Vale da Eletrônica vira alvo de gigantes

Vale da Eletrônica vira alvo de gigantes

Multinacionais apostam no polo tecnológico de Santa Rita do Sapucaí (MG)

Localizada aos pés da Serra da Mantiqueira, no sul de Minas Gerais, Santa Rita do Sapucaí, com apenas 40 mil habitantes, é conhecida como o Vale da Eletrônica. O polo tecnológico tem uma concentração de empresas do ramo que supera qualquer outra cidade da América Latina: cinco empreendimentos para cada mil habitantes. No total, são mais de 200 empresas de tecnologia, entre a nova onda das startups e as tradicionais indústrias do município. Juntas elas faturam R$ 3,2 bilhões ao ano, segundo o Sindicato das Indústrias de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares do Vale da Eletrônica.

A força é tamanha, que o salário médio dos trabalhadores formais em Santa Rita do Sapucaí estava em 2,4 salários mínimos (R$ 2.248,80) em 2017, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em Minas Gerais, o rendimento mensal domiciliar per capita era de R$ 1.322 em 2018. Outro dado relevante: o Porto Digital, no Recife, considerado o maior pólo tecnológico do Brasil com 328 empresas com cerca de 10 mil colaboradores, teve em 2019 o faturamento de R$ 1,9 bilhão, desempenho inferior ao do Vale da Eletrônica.

O histórico de desenvolvimento e produção de hardware combinado à tecnologia digital que hoje prospera em Santa Rita do Sapucaí definiu um rumo distinto para o seu polo tecnológico.

No alvo de gigantes

Tamanho desenvolvimento tem colocado o Vale da Eletrônica no alvo de gigantes multinacionais. O processo teve início em 2011 com a compra da Linear Equipamentos Eletrônicos pela gigante japonesa Hitachi Kokusai Electric. A empresa criada por ex-alunos do Instituto Nacional de Telecomunicações, o INATEL, hoje leva o nome de Hitachi Kokusai Linear e é uma das principais operações da Hitachi no mundo. Na mesma época, a gigante sueca Ericsson levou parte da sua operação de P&D também para Santa Rita. Em seguida, a Qualcomm iniciou na cidade o seu centro de desenvolvimento de aplicativos móveis, operando em conjunto com o INATEL.

Em 2017 foi a vez da norte-americana WatchGuard Technologies, líder em soluções para segurança wireless e segurança avançada de redes, anunciar a aquisição da Datablink, empresa criada no Vale da Eletrônica com foco em soluções de autenticação avançada para eBanking. Hoje, a WatchGuard mantém lá seu principal centro de P&D. No mesmo ano, a gigante chinesa Huawei instalou no município seu Centro de Desenvolvimento de Competência e Inovação (CIDC, na sigla em inglês). A iniciativa foi projetada para atender à crescente demanda na área de serviços e aumentar a colaboração da Huawei com a indústria brasileira.

O maior salto, todavia, foi a chegada da gigante Xiaomi. Em 2019 a chinesa escolheu a DL, empresa criada e estabelecida no Vale da Eletrônica, para ser a sua operação no Brasil. A partir de Santa Rita do Sapucaí, a Xiaomi oferece um portfólio que ultrapassa uma centena de produtos, incluindo sete modelos de smartphones e itens como patinetes elétricos, lâmpadas inteligentes e até mesmo mochilas. O mesmo movimento foi feito pela Nice, multinacional italiana líder mundial no segmento de automação, segurança e inteligência residencial, que se instalou no Vale da Eletrônica com uma planta de 6,2 mil metros quadrados.

Também em 2019, outra italiana, a TIM criou na cidade o seu 5G Living Lab, resultado de uma parceria com o INATEL. Outra gigante da telefonia que escolheu Santa Rita foi a espanhola Telefónica, com a criação do Crowd Vale da Eletrônica, uma aceleradora de startups que vem contribuindo com o desenvolvimento do polo.

Parcerias

Além dos investimentos estruturais, gigantes multinacionais também tem estabelecido parcerias com as empresas do Vale da Eletrônica para a construção de projetos conjuntos. Em 2017, a gigante Google escolheu o HackTown, um festival de inovação que ocupa as ruas de Santa Rita com milhares de participantes e centenas de atividades, para realizar sua primeira Casa Google Developers fora dos Estados Unidos. A iniciativa teve repercussão mundial e ofereceu palestras e oficinas durante todo o evento. Em 2019, a iniciativa foi seguida pela TIM, que realizou no HackTown sua Casa TIM 5G, com experiências envolvendo a quinta geração de telefonia móvel. Outra gigante do Vale do Silício que decidiu investir na cidade foi o Facebook, com a criação de um grupo de desenvolvedores de tecnologia, o Developer Circle Santa Rita do Sapucaí.

Mais recentemente foi a vez da gigante alemã BMW se unir à Incharge, startup do Vale da Eletrônica, para criar uma rede de carregadores para carros elétricos e híbridos. Na etapa inicial, 30 pontos de recarga estarão disponíveis na cidade de São Paulo. Posteriormente, o projeto deve ser expandido para outras capitais da América Latina, como Cidade do México, Bogotá e Buenos Aires.

Outra que se beneficiou do interesse das gigantes foi a startup de internet das coisas (IoT) Ativa Soluções. Em parceria com a Vivo Empresas, segmento corporativo da Telefônica Brasil, a empresa santa-ritense foi responsável pela tecnologia-base do projeto de ‘Fazenda Conectada’ da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), na cidade de Piracicaba, interior de São Paulo. Em uma área de 100 mil m², o projeto viabilizou por meio de uma rede 4G aliada a uma solução de estação meteorológica da startup mineira a conectividade de 100% do sistema de irrigação da fazenda da Esalq.

Na mesma onda do IoT, se deu a parceria entre a Pixel TI, empresa tradicional do Vale da Eletrônica, que se uniu à gigante norte-americana Honeywell para oferecer um sistema de automação para ambientes controlados que utiliza dispositivos inteligentes. As duas empresas trabalharam em conjunto no desenvolvimento de um sistema de automação que utiliza tecnologias como sensores, acionadores e inteligência artificial, a solução permite automatizar equipamentos eletrônicos e industriais, medir temperatura, umidade, luminosidade, consumo de energia e outros fatores que podem influenciar em um negócio.

“Santa Rita do Sapucaí é um polo de alta tecnologia”, afirma o dinamarquês Jesper Rhode, coordenador da escola global de inovação Hyper Island no Brasil. “Historicamente o país tem um viés muito forte para software e programação. Com a Internet das Coisas e a impressora 3D, entretanto, a prototipagem rápida para desenvolver hardware e dispositivos está ganhando importância na economia digital. Santa Rita está no miolo desta revolução no Brasil”, conta Rhodes. “Várias startups estão abordando inteligência artificial, inclusive deep learning para análise de imagens, colocando o Brasil no mapa global do desenvolvimento de soluções para o futuro digital”, destaca.

Para Fábio Veras, diretor de inovação da CorpLabs e professor da Fundação Dom Cabral, o desenvolvimento de hardware da região é habilidade singular. “Startups digitais e indústrias de hardware farão de Santa Rita do Sapucaí a região com maior valor agregado de inovação e valor financeiro por metro quadrado de produção do Brasil nos próximos cinco anos”, completa.

Fonte: https://polinize.com/vale-da-eletronica-vira-alvo-de-gigantes