Ecossistema é a chave para a inovação

Fomento de parques tecnológicos e incubadoras pode ser resposta para reduzir mortalidade de startups

O empoderamento dos ambientes de inovação é um dos principais caminhos para a diminuição da taxa de mortalidade das startups no Brasil. A conclusão é da pesquisadora do Núcleo de Tecnologia de Gestão da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Adriana Ferreira de Faria, professora responsável pela pesquisa “Estudo dos Ambientes de Inovação de Minas Gerais: Empresas, Incubadoras de Empresas e Parques Tecnológicos”, publicado em março deste ano. Realizada a pedido do governo do Estado, o levantamento apontou as principais carências desses ambientes de inovação e mostrou como eles podem trazer desenvolvimento econômico para o Estado quando estão fortalecidos.

A pesquisa analisou 21 incubadoras de empresas e quatro parques tecnológicos no Estado. Além disso, traz dados do ecossistema de 1996 até 2015. Entre os principais apontamentos do estudo está a importância do ambiente da incubadora na garantia de sobrevivência das empresas. De acordo com a pesquisa, do total de 354 empresas graduadas nas incubadoras mineiras entre 1996 e 2015, 195 podiam ser consideradas ativas e em funcionamento em 2015, o que gera uma taxa de mortalidade média de 45%. Adriana Faria destaca como o número é positivo, se comparado a uma média nacional.

“A Fundação Dom Cabral realizou um estudo em 2012 e mostrou que, no Brasil, 25% das startups não sobrevivem ao primeiro ano, 50% morrem até os quatro anos e 75% aos 13 anos. Nas incubadoras de Minas Gerais, nos deparamos com uma taxa de mortalidade de 45% em um período de 19 anos, o que é muito melhor que a média nacional e ainda comprova o que já imaginávamos: as incubadoras aumentam as chances de sucesso das startups”, afirma.

Para a professora, os números chamam a atenção para a necessidade de uma política de apoio às incubadoras e aos ambientes de inovação de maneira geral. Ela lembra que o Estado tem muitos programas de apoio ao nascimento das startups, mas ela destaca que a mortalidade delas só diminuirá se os ambientes de inovação estiverem saudáveis. “O segredo é trabalhar nas duas pontas: é preciso aumentar a taxa de desenvolvimento dessas empresas, mas também é urgente diminuir a taxa de mortalidade. Isso só vai acontecer com o empoderamento das incubadoras e dos parques tecnológicos”, conclui.

Adriana Faria lembra que o investimento nesses ambientes não são apenas uma demanda do setor, como uma estratégia de desenvolvimento para o Estado. Isso porque esse é um segmento que gera retorno alto e rápido. “As startups que participaram do estudo vão faturar anualmente R$ 300 milhões e pagar R$ 40 milhões de impostos por ano. Se considerarmos tudo o que foi investido de dinheiro público em incubadoras e parques tecnológicos não chegaremos nem a R$ 100 milhões. Então, o investimento foi mais que devolvido. O retorno é infinitamente maior, sem falar na geração de empregos”, analisa.

Resposta do governo – O superintendente de Inovação Tecnológica da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Minas Gerais (Sedectes), Roberto Rosenbaum, também encara como “uma boa notícia” a taxa de 45% de mortalidade das empresas incubadas em Minas Gerais nos últimos 19 anos. Ele destaca que a manutenção da baixa mortalidade é essencial para os indicadores socioeconômicos do País.

“O governo do Estado de Minas Gerais tem concentrado esforços no processo de inovação tecnológica. Em particular, destaca-se o apoio à consolidação e desenvolvimento das incubadoras de empresas de base tecnológica. As incubadoras oferecem suporte físico a um custo substancialmente menor do que os praticados pelo mercado. Além disso, outra razão para a maior chance de sucesso de empresas incubadas é que o processo de seleção capta os melhores projetos, ampliando, naturalmente, as possibilidades de sucesso dessas empresas”, afirma.

De acordo com o superintendente, o governo, junto com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), oferece recursos e bolsas às comunidades locais (prefeitura, universidades, escolas técnicas) que abrigam projetos tecnológicos. Além disso, ele cita o edital, que vai investir cerca de R$ 1,3 milhão em incubadoras do Estado.

Santa Rita do Sapucaí passa BH

O estudo sobre ambientes de inovação em Minas Gerais traz um exemplo de ecossistema bem fomentado e que tem trazido resultados reais. Trata-se da cidade de Santa Rita do Sapucaí, no Sul de Minas Gerais. De acordo com a pesquisa, até 2013, Belo Horizonte era a cidade com maior número de empresas graduadas, alcançando a marca de 32% do total, seguida por Santa Rita do Sapucaí, com 26%. Em 2015, esse quadro se inverteu: Santa Rita do Sapucaí é líder em Minas Gerais, com 27% das empresas graduadas, enquanto que a capital mineira tem 24% das empresas graduadas.

Para a pesquisadora do Núcleo de Tecnologia de Gestão da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Adriana Ferreira de Faria, responsável pelo estudo, o avanço em números de empresas graduadas está ligado às políticas articuladas do ecossistema em Santa Rita do Sapucaí. “Esse movimento aponta para a importância de um ecossistema de inovação bem articulado. A cidade conta com o Inatel, três incubadoras fortes, políticas municipais de apoio e uma base empreendedora local muito atuante que, ao longo do tempo, foi criando essa rede de resultados”, analisa.

O coordenador do Núcleo de Empreendedorismo do Inatel, Rogério Abranches, acredita que o resultado é fruto de um trabalho bem-feito pelas incubadoras da cidade e, de forma específica, pela incubadora do Inatel, pela qual ele responde. “A gestão de uma incubadora tem que ser exemplo para os empreendedores que estão ali. Na incubadora do Inatel nós temos metas claras: graduar entre duas a três empresas por ano e colocá-las no mercado. Essa meta nos faz buscar eficiência em tudo que fazemos”, afirma.

Outro diferencial da incubadora é o cuidado com o conteúdo do seu programa. De acordo com o estudo sobre ambientes de inovação, os principais cursos oferecidos aos empresários pelas incubadoras em Minas Gerais são: empreendedorismo (72%), captação de recursos (61%) e gerenciamento de projetos (56%). Abranches afirma que a incubadora do Inatel também segue essa linha, mas ele destaca que a instituição está sempre preocupada em personalizar seu conteúdo, de acordo com o tipo de empresa incubada.

“Algumas capacitações são constantes porque são necessidades de qualquer empresa. Mas é preciso que as incubadoras façam uma crítica em relação aos seus conteúdos para lidar com as startups. Elas estão chegando cada vez mais para a incubação, mas têm necessidades completamente diferentes de empresas inovadoras comuns. Estamos falando de mentorias constantes e em pensar rapidamente em uma solução de mercado”, afirma. Nesse sentido, o Inatel conta com o laboratório de ideação, que é um dos mais modernos do País para se trabalhar modelagem de negócio e fazer prototipagem rápida.

Fonte: Diário do Comércio